Os meus romanos
Conceição A. Sanches[1]
Binzer, Ina Von. Os meus romanos - alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil. São Paulo, Ed. Paz e Terra, 6a. ed., l994.
A obra, ao mesmo tempo em que constitui um registro das impressões pessoais de uma jovem professora alemã que, no Século XIX, veio exercer sua profissão no Brasil, apresenta-se também como documento histórico daquele período, retratando facetas características de nossa cultura tanto nos domínios domésticos e sociais quanto nos educacionais.

Livro: Os meus romanos
As cartas que escrevia à terra natal expressam o modo de vida da sociedade brasileira daqueles tempos, vistos sob a sua ótica, de mulher culta e inteligente, mas estrangeira e familiarizada com hábitos europeus da cultura germânica.
Suas críticas sobre a educação doméstica, fornecida pelos pais no recesso do lar, são as mesmas que se pode ouvir de qualquer professor nos dias de hoje. O mesmo se pode afirmar a respeito do desinteresse dos alunos pelos conteúdos apresentados em uma metodologia importada e não adaptada ao caráter do povo e às condições de sua vida cotidiana.
Nesse sentido, vale lembrar que toda a história da educação no Brasil se pauta em modelos importados de outros países, que foram sendo implantados nas escolas sem a contribuição que uma reflexão mais profunda poderia ter fornecido. Além disso, os conceitos basilares sobre como os temas educacionais devem ser encaminhados mudam a cada nova gestão, dependendo ao partido que ganha as eleições.
É assim que a educação vai sendo conduzida de acordo com os "modismos" impostos pela inclinação do partido político que se encontra no poder, quer no âmbito federal, estadual ou municipal. Sem um fio condutor constante, que oriente para um só rumo o destino da educação do país, cada Estado e Município vai adotando linhas diferentes e, muitas vezes, divergentes entre si.
Nessa Babel, vão se consolidando escolas que também se inclinam por este ou aquele método, e outras que, emergindo das falhas desse sistema capenga, efetivamente dedicam-se à exploração mercantil e à geração de lucros, relegando a educação que deveriam fornecer a um plano secundário e sempre postergado.
A observação de que, nesta terra, o desperdício e a miséria convivem em relativa harmonia, infelizmente, ainda pode ser constatada em todas as esferas das relações sociais na abastança de uns poucos e na paupérrima situação de uma maioria que teima em subsistir.
Outro dado relevante e atualíssimo é a reflexão que tece a respeito do "verniz de cultura" que insistimos em ostentar. Nos mais variados escalões e, inclusive, em altos postos de comando são comuns néscios vaidosos e ignorantes que prevalecem sobre os que realmente detêm algum conhecimento e competência. Na política, esse fato parece ser um traço característico dos mais constantes da nossa cultura.
A jovem professorinha alemã adverte que a abolição da escravidão, nos parâmetros em que a classe dominante a engendrou, gerava hordas de miseráveis relegadas à ignorância, já que lhes era negado o acesso à educação formal. Uma infinidade de negros libertos, porém sem posses e sem o direito aos meios mínimos de subsistência vai se amontoar pelo país e fornecer o substrato para a formação do nosso povo.
Essa postura hipócrita de oferecer liberdade sem fornecer os meios para que essa liberdade possa, de fato, ser exercida explica a desigualdade que até hoje pode ser facilmente constatada.
No âmbito do ensino público, as universidades são o exemplo mais evidente dessa política que se cristalizou e que nos alcança na atualidade. Construídas e mantidas com o dinheiro público, fornecem instrução gratuita de nível superior a uma parcela mínima da população, obrigando que a maioria custeie seus estudos em instituições particulares, submetendo-se aos altíssimos preços das mensalidades.
Em situação ainda pior, ficam os que não podem arcar com despesas dessa magnitude e, por isso, têm que se contentar com ocupações que exigem menor formação e, por conseguinte, salários mais baixos. No mercado cada vez mais exigente do mundo tecnológico e globalizado, a falta de possibilidades de acesso ao ensino superior continua a obrigar uma parcela significativa da população a condições desumanas. Condenadas a esse novo tipo de escravidão, cristalizam um fosso social que só se justifica pela violência em que as relações sociais se estabelecem em nosso meio.
Essa violência, explicada por esses tantos fatores históricos e transposta para os limites das inquietações pedagógicas nos leva a repensar nosso papel de professores inseridos neste contexto. Como herdeiros das questões levantadas pela "professorinha" que nos precedeu há mais de um século, parece ainda oportuno questionar: Quem somos na verdade? E o que fazemos? E fazemos bem? Qual é o nosso papel social? Desempenhamos esse nosso papel da melhor forma possível?
alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil: Resenha crítica
Palavras Chave:
Resenha crítica, Os meus romanos, educadora, Brasil













